Ontem eu estava para naquele sofá velho
com uma das pernas em cima do braço esquerdo
e a outra no chão
batendo as cordas enferrujadas da velha guitarra vermelha
captadores humbuckers americanos e o braço um pouco empenado
mas seu som igualmente saía parecido com algo feito por Chuck Berry
ou algo um pouco mais recente.
De repente um estrondo na porta da frete,
era Joe.
Me levantei do sofá.
Abri a porta.
Eu estava de meias, e o chão estava frio
e lá fora uma camada fina branca cobria os carros.
Disse a Joe que entrasse,
ele vestia um sobretudo preto e um cachecol velho marrom,
seus dedos das mãos estavam roxos de frio
e os pés úmidos.
-O que faz por esses lados a essa hora cara? - Perguntei
-Nada que te interesse! - Joe respondeu tirando duas garrafas de vinho de dentro do sobretudo.
De certa forma fiquei feliz em vê-lo.
Estava sendo uma longa noite,
só eu e a velha Gibson.
Sentamos nas poltronas da sala juntos da lareira,
busquei um saca-rolhas e duas taças,
abrimos uma garrafa do tinto, bebemos.
Dei algumas goladas e acendi um cigarro,
Minha ex mulher me mandava não fumar,
claro que eu não escutei o que ela dizia,
mas de certa forma ficava tranquilo de estar bebendo vinho
ao invés do uísque.
Me lembro de uma vez que eu e Joe estávamos
correndo na saída da escola depois que levantara o vestido da uma das alunas do 2º ano,
Bety era o nome dela, ela tinha seios enormes e uma bunda que dava gosto de apertar,
nós corremos dos professores e do pai da garota,
corremos por umas onze quadra até entrarmos em um beco.
Não conseguíamos nem falar de tão ofegantes.
No fim não valeu a pena a correria, pois Bety usava uma calcinha
maior que sua bunda, lembro-me de ter visto uma calcinha daquele tamanho uma vez
no varal da mãe do Joe, acho que ela beira os 47 e não é nenhum pouco atraente,
o que é bom de certa forma, pois como eu não saía da casa dele naquela época
e tinha uma certa intimidade com sua mãe, não queria criar desavenças com meu amigo.
Ouvíamos rádio pelo menos umas duas horas por dia quando estávamos sentados
na sacada que havia depois da janela do seu quarto.
A mãe dele, Elza, saía por volta das sete da manhã e voltava para casa perto das dez da noite,
Joe nunca me disse no que ela trabalhava, e eu também não perguntaria, acho que tinha um pouco de receio.
Ficávamos sentados na sacada com os pés balançando suspensos na beirada,
ouvindo rádio e fumando todas as caixas de charuto que o pai de Joe deixava na porta de baixo
do pequeno armário de bebidas que tinha na sala de estar no andar de baixo.
Embora Joe tivesse um pai e frequentemente comentasse algo a seu respeito
eu nunca tinha o visto, mas ele era meu parceiro, mesmo que ele estivesse sonhando
isso não importava para mim.
nos áureos tempos da nossa adolescência estávamos com 16 anos,
e todo o dia fielmente, bebíamos vinho ou cerveja e fumávamos os grandes charutos do pai do Joe.
Não sabia se o pai dele era real, mas os charutos eram, e o vinho também.
Agora estávamos alí, beirando os cinquenta, sentados no chão descalços em frente a lareira,
fumando maços de cigarro, e almejando por mais umas gotas da segunda garrafa do tinto.
Ainda éramos os mesmos, Henry e Joe, na infância nós lutávamos todos os dias contra o mundo,
e agora parecíamos, derrotados por ele.
Na verdade não estávamos derrotados, eu definiria como um grande teatro,
onde não éramos mais os protagonistas e sim a plateia,
e todo o resto do mundo contracenava em um grande palco,
e nós sentados na platéia, apenas nós naquele enorme número de cadeiras,
assistíamos e ríamos da cara deles.
-Eles estão cada vez mais longe de nós! - Disse ao Joe.
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